Blogue seleccionado em 2007 e 2008 pelo júri do The Bobs da Deutsche Welle - concurso internacional de weblogs, podcasts e videoblogs - como um dos dez melhores weblogs em português entre 559 concorrentes (2007) e um dos onze melhores entre 400 concorrentes (2008). Entrevista sobre o concurso de 2008 no UOL, AQUI.
Para todas e todos vós, para as vossas famílias, os meus votos de um feliz 2015, habitado pela saúde. Sintam-se bem e regressem sempre. Índico abraço.
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26 janeiro 2015

Sobre a pequena mão de Deus

De uma entrevista de 2009: "Não é saudável que vitórias possam surgir no imaginário popular como se obtidas com o aval de uma pequena mão de Deus. Creio que uma solução boa seria a de termos uma Comissão Nacional de Eleições efectivamente distante das filiações partidárias, plenamente profissional, o que, convenhamos, não é nada fácil. E com regras transparentes, acessíveis a todos, consultáveis a qualquer momento. Creio que estas são tarefas inadiáveis e urgentes." Aqui.

No "Savana" 1098 de 23/01/2015, p.19

Se quiser ampliar a imagem, clique sobre ela com o lado esquerdo do ratoNota: "Fungulamaso" (abre o olho, está atento, expressão em ShiNhúnguè por mim agrupada a partir das palavras "fungula" e "maso") é uma coluna semanal do "Savana" sempre com 148 palavras na página 19. A Cris, colega linguista, disse-me que se deve escrever Cinyungwe. Tem razão face ao consenso obtido nas consoantes do tipo "y" ou "w". Porém, o aportuguesamento pode ser obtido tal como grafei.
Adenda: também na rubrica Crónicas da minha página na "Academia.edu", aqui.
Adenda 2 às 04:46: o boato da bílis letal de crocodilo chegou também a Nampula, fazendo fé no "Wamphula Fax" de hoje (recorde ainda aqui):

25 janeiro 2015

O seccionismo regional de Dhlakama/Renamo

Segundo a "Lusa" citada pelo "SapoNotícias", o presidente da Renamo abandonou a ideia do governo de gestão e faz agora finca-pé na autonomia governativa da região compreendida pelas províncias de Sofala, Manica Tete, Nampula, Zambézia e Niassa. Aqui.
Adenda: sem resposta do Estado ao seu governo de gestão, o presidente da Renamo enveredou agora pelo seccionismo regional. Como escrevi neste diário no dia 04, "o que se passa é a transposição da guerrilha física (na qual por muitos anos ele foi e continua a ser o comandante) para a guerrilha discursiva, simbólica. A guerrilha discursiva, simbólica, replica a coluna vertebral da guerrilha física, na qual a irregularidade permanente, versátil, do guerrilheiro, faz face à regularidade do exército estatal." Aqui.
Adenda 2 às 12:13: Dhlakama multiplica-se em comícios e visitas, obtendo sempre grande visibilidade mediática com o seu discurso populista. Finalmente, parece que já autorizou que os 89 deputados do seu partido ocupem os seus lugares na Assembleia da República.
Adenda 3 às 06:37 de 26/01/2015: segundo o "Wamphula Fax" de hoje, a propósito da visita de Dhlakama à província de Nampula: "Para o líder da Renamo, a operacionalização do seu projecto político de criação de “regiões autónomas” de Centro e Norte, onde ele e seu partido teriam conseguido maior número de votos nas eleições gerais de 15 de Outubro findo, vai acontecer “só se for necessário”, isto é, “se as negociações actualmente em curso entre o governo da Frelimo e a Renamo, falharem” [...].

Chitima e a lenda/boato da bílis letal de crocodilo (7)

- "Gente idosa e residente em Chitima acredita que nas mediações daquele povoado há rios povoados por Crocodilos e que apesar deste animal ser de difícil aquisição, um experiente premeditou este acto, tendo colhido e devidamente conservado partes de bílis deste animal, com o intuito de dizimar vidas. Esta asserção vem ao de cima por experiências amargas do passado e que virou lenda naquele povoado!" Aqui.
- "Na tragédia actual em Moçambique, não posso imaginar quanta bílis seria necessária para adicionar a 210 litros de cerveja de maneira a causar muitas mortes." Aqui. (agradeço ao RC o envio desta referência)
Sétimo número da série. Finalmente, passo à terceira e última pergunta sugerida aqui, a saber: Se a crença é subjectivamente sentida como verdadeira, qual a razão ou quais as razões?  Nas condições sociais que são as suas (fraco domínio das relações sociais e naturais), as pessoas de Chitima (e não só daqui) fazem do crocodilo uma espécie de chave-mestra que abre todas as fechaduras sociais do Perigo, do Mal e das Trevas. Dispensam a evidência empírica, basta-lhes a crença, uma crença que opera como causa que faz sempre sentido. Esta é uma mera hipótese. Hipótese que se aplica, também, a todos aqueles que, em jornais, redes sociais e blogues, adoptaram - por inteiro ou como possibilidade - a malévola bílis crocodilácia como causa da tragédia de Chitima.
Adenda: entretanto, leia a produção de um boato sobre água envenenada na cidade de Tete, aqui.

As verdadeiras chaves do social

Quanto mais insistimos nos aspectos fora de comum, na superfície dos fenómenos (a este nível com um forte pendor psicologizante), quanto mais ênfase damos ao espectáculo de coisas, mais escondidas ficam as verdadeiras chaves do social. Desta maneira, aspectos considerados perturbadores da realidade social são travestidos em aspectos inócuos, destituídos de vida própria ou convertidos em preceitos morais, desta maneira a pasteurização social elimina os "microorganismos patogénicos" sociais.

Árvores

Um dos grandes problemas é discutirmos pessoas e não os sistemas nos quais vivem; é discutirmos os méritos ou deméritos individuais e não a estrutura dos sistemas nos quais têm as suas vidas e constroem os seus pensamentos; é discutirmos árvores e não florestas.

24 janeiro 2015

Isso não vai suceder

No ano passado escrevi uma série cujo penúltimo parágrafo foi este: "No caso de a Frelimo ganhar as eleições presidenciais e legislativas de 2014, teremos, por hipótese, durante pelo menos cinco anos, um omnipotente presidente da luta de libertação à testa de tudo através do partido e um presidente das gerações pós-independência à testa do Estado, em posição vincadamente subalterna." Aqui.
Observação: segundo o "SapoNotícias" citando a "STV", o veterano Sérgio Vieira da Frelimo entende que o presidente da República, Filipe Nyusi, devia ser também o presidente do partido. Aqui. Defendo que isso não vai suceder tão breve, por duas razões: primeiro, porque Nyusi está num modesto 139.º lugar na lista dos 197 membros efectivos do Comité Central da Frelimo, confira aqui. E, claro, não é membro da Comissão Política. Segundo, porque sendo Nyusi o primeiro Chefe de Estado a inaugurar as gerações pós-independência, será rigorosamente monitorado pelos pais fundadores da luta de libertação nacional em geral e por aqueles que se encontram na Comissão Política em particular. Por outras palavras, Nyusi está em provas de exame, que podem durar anos, Armando Guebuza (presidente do partido Frelimo) e a Comissão Política são os membros do júri. Que tipo de provas de exame? As relacionadas com fidelidade partidária e as relacionadas com criatividade estatal moderada.
Adenda às 19:49: a monitoria será tão mais apertada quão - na disputa por recursos de poder e prestígio - mais agressiva se apresentar a Renamo enquanto memória do passado castrense e mais diligente se apresentar o MDM enquanto partido civil do futuro.

"À hora do fecho" no "Savana"


Na última página do semanário "Savana" existe sempre uma coluna de saudável ironia que se chama "À hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Seguem-se dois extractos reproduzidos da edição 1098, de 23/01/2015, disponível na íntegra aqui:
Nota: de vez em quando perguntam-me por que razão o ficheiro está protegido com senha e marca de água. Resposta: para evitar que os ávidos parasitas do copy/paste/mexerica o copiem, colocando-o depois no seu blogue ou na sua página de rede social digital com uma indicação malandra do género "Fonte: Savana". Mas, claro, um ou outro é persistente e consegue transcrever para o word certos textos, colocando-os depois no blogue ou na rede social, mas sem mostrar o verdadeiro elo. Mediocridade, artimanha e alma de plagiador são infinitas.

23 janeiro 2015

Amanhã neste diário

Como cogumelos

Como cogumelos, num ritmo vertiginoso, após abate de moradias antigas, surgem prédios no Bairro da Polana da cidade de Maputo. Muitos desses prédios são para habitação. Não ficam atrás os condomínios. De onde vem tanto dinheiro? A que grupos sociais são destinados semelhantes construções?

Os mediadores

Amplie a imagem clicando sobre ela com o lado esquerdo do rato.

22 janeiro 2015

"Nacionalismo de recursos"

No "O País": "As incertezas sobre a regulação em Moçambique e os riscos de um aumento do “nacionalismo de recursos” podem diminuir o interesse dos investidores e adiar os projectos, considera a Business Monitor Internacional [...]." Aqui.

Drama

Há 11 dias sem energia, estradas cortadas devido às chuvas, tráfego rodoviário interrompido, pessoas isoladas pelas águas - múltiplos danos para Nampula, leia uma reportagem aqui.

Prismas

Antigos trabalhadores moçambicanos na extinha RDA, os madgermanes, foram ontem à sede da "Sociedade Notícias", na cidade de Maputo. Estude-se a forma como dois jornais digitais relataram o sucedido, em primeiro lugar o "Notícias" que usou o verbo "marchar" aqui e em segundo lugar o "Canal de Moçambique" que usou o verbo "invadir" aqui.

Produção de heróis e mártires para a Renamo (7)

Sétimo número da sériePor que tenta a polícia transformar António Muchanga em herói? - esta foi uma pergunta formulada pelo jornalista Paul Fauvet aqui. Essa pergunta é o pretexto para esta série. Prossigo com as hipóteses. Já escrevi sobre a produção de heroísmo e de messianismo em relação a Afonso Dhlakama. Falta agora escrever um pouco sobre a produção de martirismo no tocante a António Muchanga, porta-voz do presidente da Renamo, conforme prometido aquiAguardem a continuidade da série. (mapa abaixo reproduzido com a devida vénia daqui)

Seis entrevistas

Seis entrevistas no portal Academia.edu, aqui.

21 janeiro 2015

"A objectividade é impossível" (George Mombiot)

De um texto de George Mombiot no TheGuardian digital: "Quando as pessoas dizem que não têm política, isso significa que estão alinhadas com o status quo. Nenhum de nós é imparcial, ninguém é estrangeiro à questão do poder. Somos criaturas sociais que absorvem as perspectivas e as opiniões daqueles com quem nos identificamos e inconscientemente deles somos eco. A objetividade é impossível." Aqui. [tradução minha, CS; referência encontrada aqui.]
Adenda : neste momento há 721 comentários no texto citado.

Dhlakama anuncia encontro segundo "Lusa"

Segundo a "Lusa" citada pelo "SapoNotícias": "O Líder da Renamo, maior partido de oposição em Moçambique, Afonso Dhlakama, anunciou hoje um encontro com o novo executivo moçambicano, para discutir a sua exigência de um governo de gestão, que a Frelimo, no poder, rejeita." Aqui.
Adenda às 07:15: no tablado político do país, Afonso Dhlakama continua em extrema evidência e mobilidade: ora vai para a frente ora vai para trás, ora vai a um meio contemporizador. É exímio na guerrilha discursiva e nas emboscadas mediáticas.
Adenda 2 às 07:48: "Segundo Damião José, o partido no poder está porém aberto “a trabalhar e dialogar, tendo sempre em vista para a inclusão, que não significa ter membros da oposição no Governo, mas ouvir o pensamento dos moçambicanos e as forças vivas da sociedade”. Aqui.
Adenda 3 às 10:23: no "mediaFAX" de hoje, aqui:
Adenda às 16:51: "A Frelimo, não confirma o encontro anunciado ontem pelo líder da Renamo, Afonso Dhlakama, com o executivo, avisando que não haverá discussões sobre a exigência de um Governo de gestão. [...] Não existe nada, é absolutamente falso." Aqui.

Chitima e a lenda/boato da bílis letal de crocodilo (6)

- "Gente idosa e residente em Chitima acredita que nas mediações daquele povoado há rios povoados por Crocodilos e que apesar deste animal ser de difícil aquisição, um experiente premeditou este acto, tendo colhido e devidamente conservado partes de bílis deste animal, com o intuito de dizimar vidas. Esta asserção vem ao de cima por experiências amargas do passado e que virou lenda naquele povoado!" Aqui.
- "Na tragédia actual em Moçambique, não posso imaginar quanta bílis seria necessária para adicionar a 210 litros de cerveja de maneira a causar muitas mortes." Aqui. (agradeço ao RC o envio desta referência)
Sexto número da série. Passo agora à segunda pergunta sugerida aqui, a saber: É a crença objectivamente falsa, mas subjectivamente sentida como verdadeira? Sim, a resposta é positiva. No imaginário popular não está em causa a pesquisa laboratorial da bílis do crocodilo, como preocupação isso não é possível nas condições sociais e tecnológicas locais. O que está em causa, o que constitui a coluna vertebral da crença é que ela é considerada verdadeira, faz sentido, tem sentido. A crença é falsa para muitos de nós, mas verdadeira para muitas pessoas em Chitima e em outros locais. Aguarde o próximo número desta série.
Adenda às 07:51: a polícia anunciou estar próxima de encontrar os autores do envenamento do pombe que provocou 75 mortos em Chitima, província de Tete. Aqui.

20 janeiro 2015

Dhlakama regressou ao discurso castrense

No "O País" digital de hoje: "O líder da Renamo, Afonso Dhlakama, ameaçou, na tarde de ontem, tomar as capitais provinciais, incluindo a capital do país (Maputo) e governar o país, por um certo período, caso as suas propostas da criação de um governo de gestão ou da República Centro e Norte de Moçambique não encontrem espaço no seio da Frelimo e seja impedido pelo governo." Aqui.
Adenda às 14:57: enquanto isso, a "Folha de Maputo" tem esta notícia aqui.
Adenda 2 às 15:20: outra notícia a conferir, desta vez da "Lusa" citada pelo "SapoNotícias", aqui.

Resultados eleitorais e teses preguiçosas (26)

Vigésimo sexto número da série. Trabalhando sempre com hipóteses, termino esta série, com o sexto ponto dos seis pontos sugeridos aqui, a saber: 5. Das lógicas dos políticos às lógicas populares. Através dos mais variados meios de comunicação, os políticos - em sua maioria - são sempre intransigentes. Não só entendem que podem falar em nome do povo mesmo sem mandato deste, quanto têm a certeza de que o povo os ama. As multidões dos comícios são um bom momento para os políticos darem azo às suas lógicas. O que sucede às lógicas populares? Em sua diversidade social, em sua multiplicidade opinativa, em seus anseios, em suas desesperanças, ficam invariavelmente reféns dos discursos dos políticos e do anonimato dos votos. Os políticos não gostam que os povos pensem, mas que sejam pensados. Todavia, a história costuma ser perversa e por isso, não poucas vezes, as lógicas populares libertam-se.
(vide Serra, Carlos [dir], Eleitorado incapturável, Eleições municipais de 1998 em Manica, Chimoio, Beira, Dondo, Nampula e Angoche. Maputo: Livraria Universitária, 1999, pp.43-243)

Renamo e síndrome líbia

Através do seu presidente, Afonso Dhlakama, a Renamo decidiu que as eleições gerais de Outubro de 2015 foram fraudulentas. Aliás, nas eleições gerais de 1994, 1999, 2004 e 2009 decidiu o mesmo. Tal como exigiu que a Renamo esteja representada em todos os órgãos das forças de defesa e segurança, Dhlakama exigiu um governo de gestão, no qual o seu partido esteja incluído. A exigência do governo de gestão não foi aceite pelo Estado. Os deputados da Frelimo e do MDM já tomaram posse na Assembleia da República, o governo já foi formado. Enquanto isso, de comício em comício, Afonso Dhlakama afirma que vai formar a República do Centro e Norte de Moçambique, tendo-o como presidente. A promessa deste seccionismo regional é acompanhada da permanente e rude declaração de que a Frelimo vai ter de se ajoelhar perante ele e o seu partido. O presidente da Renamo não fala em guerra - ele, que é especialista em guerrilha -, mas todos os seus comícios são poderosos estímulos à desobediência civil, são uma permanente flagelação de guerrilha discursiva no dorso do Estado, criando preocupações a esse Estado, aos Moçambicanos em geral, ao grande Capital internacional com interesses no país e às missões diplomáticas locais. Provavelmente os 89 deputados da Renamo não tomarão posse na Assembleia da República (pelo menos tão breve) e Dhlakama poderá formar, de facto, um governo paralelo, ampliando a concepção antiga do seu governo sombra. Resta saber como poderá semelhante governo funcionar. Estamos, assim, nesta dura luta por recursos de poder e prestígio, perante as trombetas do síndrome de um país onde neste momento há dois governos e dois parlamentos: a Líbia. Trombetas que, retinindo aqui, ferem gravemente a Constituição e a Nação.
Adenda às 10:37: confira a mais recente postagem deste diário aqui.